Mais do mesmo: Academia faz cerimônia morna com premiações protocolares (por Eduardo Marsola)

E mais uma vez nosso colega expert em Cinema dá as caras aqui no Junkies com comentários sobre a maior premiação da indústria. Confiram aqui a opinião de Eduardo Marsola.

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Falar dos absurdos e injustiças artísticas de Hollywood no Oscar é chover no molhado.
O que importa é se divertir com o prêmio mais referencial do mundo e fazer dele um grande lazer cinéfilo.

A cerimônia foi morna, com a MC Ellen Degeneres tentando ser o mais natural e popular possível. Em alguns momentos, esse minimalismo informal passou do ponto (ninguém quer ver o Brad Pitt comendo pizza, ou quer?). Isso é mais um indício da “síndrome da vida real” que assola o cinema americano (como explico na conclusão lá embaixo).

Bons números musicais, embora todos simples, seguindo a linha “menos é mais” (que não combina com o evento).

Houve uma justa homenagem a “O Mágico de Oz”, mas achei deselegante apresentar a eterna estrela Liza Minnelli (que é filha de Judy Garland) apenas na plateia, sem convidá-la ao palco.

Tivemos também duas aparições especiais: Sidney Poitier (tudo a ver com o “ano dos negros”) e a jurássica Kim Novak,
a eterna Ms. Vertigo, com suas dezenas de plásticas evidentes.

E, finalmente, um dos pontos mais negativos continua sendo a não inclusão da entrega do Oscar Honorário pelo conjunto da obra durante a cerimônia (agora ele é entregue num jantar de gala anterior ao Oscar). Alguns dos momentos mais emblemáticos e emocionantes da história do Oscar sempre foram os prêmios honorários, portanto é lamentável sua exclusão da festa principal em nome do tempo de televisão; seria melhor realocar para estas cerimônias anteriores alguns prêmios totalmente desinteressantes, como Curta de Animação, Documentário em Curta-Metragem etc. Este ano um dos ganhadores do Oscar Honorário foi o comediante Steve Martin (hum, sei não, havia outros nomes mais urgentes para receber esta honra).

Melhor Filme: 12 Anos de Escravidão

É compreensível a mobilização por “12 Anos de Escravidão” por todo contexto político-histórico-social que o tema do filme traz à tona, mas pergunto sobre um perigo desse tipo de escolha: um filme pode ser considerado melhor ou mais importante que outro por tratar de assunto “real” em detrimento de histórias ficcionais? Afinal, estamos falando de cinema (arte), não de outra coisa. Como cinema em si, não enxergo maior importância no filme ganhador do que em “Gravidade”, por exemplo. Mas, parece que a indústria e o público em geral estão dando preferência a uma pretensa “superioridade” de uma obra por critérios que não são artísticos. Se estamos falando de arte, “Gravidade” e “O Lobo de Wall Street” são melhores que o vencedor de Melhor Filme.

Melhor Diretor: Alfonso Cuarón (Gravidade)

Prêmio justo para um trabalho complexo e memorável de Cuarón, que ainda vai longe na sua já excelente trajetória. Vale lembrar que ele é o primeiro diretor latino a ganhar este prêmio, o que é relevante. A lamentar somente Martin Scorsese, mais um gênio “incompreendido” pela Academia (ficou visivelmente chateado quando anunciaram o vencedor). Scorsese só levou um Oscar de direção até hoje, quando já deveria ter levado pelo menos quatro.

Melhor Ator: Matthew McConaughey (Clube de Compras Dallas)

Um prêmio que corrobora o vício da Academia em escolher atores que passam por transformações físicas. A boa notícia é que McConaughey fez um excelente trabalho dramático e mereceu o troféu. Mas, que já estão devendo um Oscar para o Leo Di Caprio faz tempo, estão.

Melhor Atriz: Cate Blanchett (Blue Jasmine) 

Aqui era barbada, a mulher é uma diva e provável sucessora de Meryl Streep.

Melhor Ator Coadjuvante: Jared Leto (Clube de Compras Dallas) 

Mesmo critério da premiação de McConaughey, transformação física e competência dramática. Merecido.

Melhor Atriz Coadjuvante: Lupita Nyong’o (12 Anos de Escravidão)

Fiquei impressionado com uma entrevista que ela deu, parece saber exatamente onde está pisando… Lupita foi muito bem,
porém, pesou o contexto político-histórico-social na escolha da Academia. Jennifer Lawrence é um fenômeno e merecia
o Oscar mais agora do que quando ganhou ano passado.

Melhor Roteiro Original: Spike Jonze (Ela)

Errei no palpite, pois achava que esta seria a única estatueta de “Trapaça”, que saiu do evento de mãos vazias. Gosto da premissa do roteiro de Spike Jonze, mas penso que não foi bem concluído. Ainda prefiro a humanidade latente do roteiro de “Nebraska”.

Melhor Roteiro Adaptado: John Ridley (12 Anos de Escravidão)

Prêmio injusto para um roteiro esquemático e academicista. Já que “12 Anos de Escravidão” levou o prêmio principal da noite,
podiam ter dado pelo menos este Oscar para “O Lobo de Wall Street”, este sim com um roteiro assombroso.

Melhor Filme Estrangeiro: A Grande Beleza

Uma verdadeira ode ao que o cinema tem de melhor, mereceu o Oscar, com menção honrosa à pequena pérola belga chamada “Alabama Monroe”.

Outros prêmios 

O grande número de prêmios técnicos de “Gravidade” (mereceu todos!) corroboram a tese de que é mais filme que “12 Anos de Escravidão”. O filme de Alfonso Cuarón é uma das obras mais sensoriais a que já tive o prazer de assistir na minha vida, muito graças a todo o apuro técnico envolvido.

Tivemos surpresa em Documentário em Longa-Metragem, com o favorito “O Ato de Matar” sendo desbancado por “A um Passo do Estrelato” (escolha conveniente).

Em Animação em Longa-Metragem, um prêmio óbvio de “Frozen”, que também deixou o U2 para trás em Canção Original.

Conclusão:

Estamos vivendo a “síndrome da vida real”, numa inversão de valores que desmerece as ótimas obras de ficção em favor
de um suposto realismo supostamente exigido pelo público. Será? Se o cinema é arte e Hollywood é a fábrica de sonhos
por excelência, como poderemos apreciar a arte e sonhar com as histórias criadas se nos oferecem somente fatos filmados?
E o pior é que a maioria esmagadora das grandes produções biográficas sempre é sobre personagens que tiveram histórias
de superação ou redenção. Essa necessidade, quase obrigação, que os personagens hollywoodianos têm de se redimir é irritante,
pois limita os biografados.

Não foi à toa que entre o psicótico não redimido de Leonardo Di Caprio e o cowboy homofóbico de Matthew McConaughey, a Academia escolheu mais uma vez aquele que se redime, nesse caso, uma redenção moral.

Nos últimos anos de Oscar, somente o personagem de Daniel Day-Lewis em “Sangre Negro” não se redimia de alguma maneira
no final. De resto, só protagonistas que de algum modo compram/vendem a ideia consagrada e previsível da segunda chance.

Enfim, dos nove indicados a Melhor Filme, apenas três são histórias de ficção. Portanto, falta equilibro nessa balança.

Oxalá isso comece a mudar ano que vem.

Obrigado, um abraço e até o Oscar 2015!

Texto por Eduardo Marsola

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