“Ela” – Poesia em forma de cinema

her-movie-review-1De todos os filmes indicados ao Oscar que eu venho assistido (não são todos, mas são alguns na minha lista), certamente “Ela” é o mais poético de todos. Escutei muita gente criticando sem ter assistido ao filme, apenas com base na sinopse que, eu entendo, não parece muito animadora. No entanto, Spike Jonze transforma um conceito simples em poesia pura. “Ela” é um dos filmes mais apaixonantes que já tive o prazer de assistir.

Para começar, os atores estão espetaculares. Joaquim Phoenix é a personificação da solidão e isso está em todos os elementos que o cercam: Sua profissão, seu guarda-roupa, a decoração de seu apartamento, suas relações sociais, seu olhar, seu tom de voz choroso e, é claro, sua relação mal resolvida com o recente divórcio.

Amy Adams está engraçadíssima, algumas das melhores tiradas do filme partem de sua personagem que, embora casada e com um futuro profissional promissor, transmite nos olhos a mesma solidão do protagonista. Sim, o filme é uma alusão às relações superficiais que a tecnologia nos incentiva a desenvolver, mas o assunto é tratado com tanta delicadeza que a abordagem não se permite ser cansativa ou óbvia em nenhum momento.

Scarlett Johansson dá voz à Samantha, um sistema operacional com a qual o protagonista, Theodore, se apaixona. Acompanhando de perto a vida dele, Samantha passa a experimentar o universo humano e, como consequência, a buscar novas sensações, tornar-se quase uma pessoa real. Após uma tentativa frustrada de estabelecer contato físico com ninguém mais, ninguém menos que Olivia Wilde, Theodore atinge o ápice de sua solidão após a separação de sua esposa, Catherine (Rooney Mara – quase irreconhecível) e, compartilhando sua tristeza com Samantha, se envolve em uma das cenas de sexo mais eróticas que já testemunhei no cinema e, à partir daquele momento, os dois estabelecem uma relação amorosa real.

Por meio de um sistema portátil, Theodore leva Samantha para conhecer o mundo e, juntos, passam a descobrir coisas sobre si próprios que jamais fariam em seu estado natural de solitude. Aos poucos, ele passa a perceber que sua relação com o software não é exclusivamente uma característica sua, mas que a raça humana, totalmente isolada em virtude da dependência tecnológica, adquiriu o hábito de relacionar-se com o virtual.

Entre longos devaneios líricas compartilhados por Theodore e Samantha, “Ela” retrata um universo atemporal, misturando tecnologias do futuro com uma fotografia vintage extremamente poética e discursa sobre o isolamento da raça humana e as consequencias que nos aguardam se dependermos do universo virtual para sentirmos alguma coisa de verdade. Outro destaque imperdível é a trilha sonora do Arcade Fire e, acima de tudo, a canção indicada ao Oscar, “The Moon Song”, compartilhada entre os protagonistas em uma demonstração indescritível do significado mais bruto de “intimidade”.

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