O filme mais discutido do ano: “Ninfomaníaca – volume 1” chega aos cinemas

968full-nymphomaniac--volume-1-posterEu escutei de tudo sobre o filme antes mesmo de sua estréia. Minha maior decepção foi descobrir que a versão dos cinemas foi editada pelo estúdio, mas era de se esperar… Afinal, não é qualquer um que segura a bronca de ter um roteiro autoral de Lars Von Trier sob sua responsabilidade. Não aguentando esperar a versão sem cortes em DVD, já corremos para o cinema na semana de estreia para conferir o filme mais polêmico da década ou, pelo menos, a primeira parte dele.

Em uma única palavra? Espetacular! Honestamente, um dos roteiros mais crus e honestos que encontro nos últimos anos. Já reclamei mais de uma vez o quanto o cinema andou secando a própria fonte, ganhando dinheiro em cima de sequencias de franquias já exaustas e versões de baixa qualidade de clássicos do passado. Inserido neste cenário de reciclagem descarada, “Ninfomaníaca” é um respiro de ar fresco em sua originalidade e honestidade brutal.

Não sabendo o que esperar do filme, já me senti incomodada nos primeiros minutos: O filme abre com o repetitivo som de água caindo sobre uma estrutura metálica e apenas depois que o som já está inserido nos ossos do espectador é que temos a primeira visão da protagonista, Joe. Exceto que ela está caída, ensanguentada e inerte, sobre uma calçada de pedras molhadas em um dia de chuva. Em seguida, ela é acordada por Seligman (retratado pelo incomparável Stellan Skarsgård) e, negando chamadas para ambulâncias ou policiais, Joe concorda em acompanhá-lo à sua casa e receber a ajuda dele. Enquanto Seligman cuida dela, os dois começam a conversar e ela decide lhe contar sua história, provando a ele que ela é realmente um ser humano ruim.

Toda a dinâmica do filme se constrói em cima desta troca entre os dois. Joe argumenta o quanto sua doença a torna desprezível e Seligman nega a visão dela, escutando atentamente a visão de mundo diferenciada que ela lhe oferece. Este primeiro volume da história retrata a história de Joe ainda jovem, desde a infância até o final de seus 20 anos, e sua descoberta da própria ninfomania com todas as ramificações que a tornarão a pessoa ruim que ela apresenta ao mundo aos 50 anos de idade, quando Seligman a encontra.

As primeiras explorações de Joe no universo sexual ao lado da amiga, B, são extremamente engraçadas. No paralelo com o universo da pesca estabelecido por Seligman nos primeiros estágios da história, é fácil identificar as inserções humorísticas do diretor e, ainda assim, compreender a tragédia que essas “comédias de erros” gera na vida da protagonista.

Entre os muitos aspectos da natureza humana abordados pelo filme, pode-se encontrar desde carinho, admiração, revolta, dependência, depressão e, acima de todos, o real significado do amor. Ao contrário do que Joe espera em suas primeiras investidas sexuais, ela se encontra no início da vida adulta desesperadamente buscando o amor e criando em Jerôme (Shia LeBeuf) a personificação deste desejo, ainda que – como ocorre com a maioria das pessoas que possuem distúrbios neurológicos sérios – o sentimento possa ser descrito mais como obsessão do que amor em si.

Entre as idas e vindas recontadas por Joe neste primeiro volume, é preciso destacar a participação de Uma Thurman na pele de Mrs. H, que está espetacular e rouba completamente a cena, quase dançando na tela no papel de mulher traída. Sensacional. A participação de Christian Slater na pele do querido pai da protagonista também merece destaque, desde a doçura retratada na infância dela até seus dias finais compartilhados com a filha no hospital, a parte que – pessoalmente – considero a mais pesada de todo o filme.

Há maestria também nos paralelos e metáforas escolhidas pelo diretor para recontar a trágica história de Joe. Além da pescaria, que traz um elemento de humor à trama, Seligman e Joe ainda constroem uma sinfonia completa para relatar suas escolhas sexuais na vida adulta de uma forma tão poética e delicada que seria até romântica se não fosse completamente destrutiva.

Em resumo, este primeiro volume da história conta como a vida de Joe evolui até a total ausência de empatia e como seu espírito é lentamente destruído pela doença. As cenas de sexo são bastante explícitas, sim, mas muito bem utilizadas e inseridas no contexto. Não há nudez gratuita, não há razão para encabular o público. Aqueles que estão esperando ver muita putaria, podem esquecer. A obra de Lars Von Trier é magistral e eu mal posso esperar pelo próximo volume. Acreditem: estarei na pré-estréia brigando por um lugar nem que seja para sentar no chão da escada, ainda que a segunda parte prometa ser bem mais agressiva, hostil, violenta e explícita. Com certeza, será um filme incômodo, mas absolutamente imperdível.

 

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