Sherlock Holmes e o melhor brinde de casamento da história da TV

SOT4Eu já mencionei anteriormente que a série inglesa “Sherlock” é um absurdo e dá de mil na sua prima distante americana conhecida como “Elementary”. O único defeito da versão britânica é o tamanho da temporada: São apenas 3 episódios por ano, com 90 minutos de duração e, infelizmente, todos já foram ao ar lá fora neste começo de 2014.

Após seu misterioso retorno do mundo dos mortos, Sherlock retorna à vida de John Watson para encontrá-lo um homem mudado, ou melhor, apaixonado. Na noite de seu retorno, o amigo pede a namorada, Mary Morstan, em casamento e, como seria de se esperar, Sherlock se encontra com uma difícil missão nas mãos: abraçar seu papel como padrinho, levantar-se durante a cerimônia e proclamar um discurso que eleve sua amizade com John e celebre a união dele com Mary, apesar de seu medo de perder o amigo após a união. A missão seria difícil para qualquer pessoa nesta situação mas, para um sociopata diagnosticado, fica mais complicado ainda.

O episódio inteiro gira em torno deste brinde espetacular de Sherlock que, por meio de analogias tiradas diretamente dos casos descritos por John em seu blog, consegue desenhar a personalidade do amigo, realçando o quanto a humanidade latente de John complementa seu raciocínio quase exclusivamente lógico. Agora, em minha modesta opinião, quem vem roubando a cena nesta temporada é a nova esposa de John, a adorável Mary que, além de compreender a relação complexa de John e Sherlock melhor do que eles mesmos, consegue manipulá-los para que trabalhem em sua amizade da forma mais adorável do mundo, enganando até mesmo o frio e distante Senhor Holmes.

Alguns momentos do episódio são absolutamente hilários, com destaque para toda a seqüência da noite da despedida de solteiro de John no qual ambos, pesos bastante leves na arte de levantamento de copo, conseguem ficar completamente embriagados em menos de duas horas e acabam aceitando um caso bastante intrigante ainda inebriados. Absolutamente espetacular!

Segue aqui abaixo o discurso mais emocionante já feito por um sociopata altamente funcional:

“O que estou tentando dizer é que eu sou o filho da puta mais desagradável, rude, ignorante e absolutamente insuportável que qualquer pessoa poderia ter o desprazer de conhecer. Eu desdenho tudo aquilo que é virtuoso, desconheço tudo que é bonito e não reconheço a face da felicidade. Por esta razão, se não compreendi quando fui convidado a ser padrinho de casamento, é por que nunca esperei ser o melhor amigo de ninguém, certamente não o melhor amigo do ser humano mais valente, gentil e sábio que eu já tive a sorte de conhecer.  John, eu sou um homem ridículo, redimido apenas pelo calor e estabilidade da sua amizade. Porém, como aparentemente sou seu melhor amigo, não posso parabenizá-lo pela sua escolha de companhias. Na realidade, agora eu posso. Mary, quando digo que você merece este homem, este é o maior elogio que sou capaz de fazer. John, você sobreviveu à guerra, ferimentos e perdas trágicas. Mais uma vez, me desculpe por esta última. Assim, saiba disso: Hoje, você se senta entre a a mulher que você fez sua esposa e o homem cuja vida você salvou. Resumindo, as duas pessoas que mais o amam no mundo. E sei que falo por Mary quando afirmo que jamais vamos lhe decepcionar, e temos uma vida inteira para lhe provar isso.”

Não são apenas palavras bonitas escritas por um homem altamente inteligente, emulando sentimentos que observara em outros seres humanos da forma como já fizeram no passado para manipular as emoções de John. As palavras ditas por Sherlock Holmes neste momento são uma verdadeira confissão de suas próprias falhas, uma declaração até então inédita vinda do homem mais arrogante do universo, como demonstrado em suas recentes discussões com Mycroft. Nestas palavras estão inseridas todas as lições aprendidas por ele nos dois anos em que, forjando a própria morte para proteger o próprio John, Sherlock se encontrou obrigado a enfrentar os próprios demônios. Em suas palavras, ele admite para si mesmo que ele só é capaz de ser um herói com John ao seu lado. Caso contrário, ele não passa de um excelente resolvedor de enigmas, uma vez que o heroísmo vive dentro da humanidade de Watson, como fica claro em sua própria declaração: “Eu sou capaz de resolver o seu assassinato, mas John salvará a sua vida.”

tumblr_inline_myrxw1h31P1qe4lxxMais do que uma carta de amor a John Watson, as palavras de Sherlock são uma declaração de amor à própria Mary, um agradecimento à compreensão dela de que a relação dos dois é responsável pelas pessoas que se tornaram e, juntos, John e Sherlock trazer à tona o que há de melhor um no outro. Pela primeira vez em todo o tempo que dividiu com John, Sherlock percebe que, ao lado de Mary, John encontra a felicidade e se torna o herói que Sherlock sempre admirou no amigo, chegando a ignorar o fato de que, em sua primeira análise de Mary, no primeiro episódio da terceira temporada, entre as muitas características identificadas, como “amante de gatos” e “inteligente”  ele inclui a palavra “LIAR”, ou seja, “Mentirosa”. Porém, ao que tudo indica, Sherlock está completamente disposto a deixar isso de lado em prol da felicidade de John.

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