Review final: Dexter – “Remember the Monsters?”

dexter_finale Tá todo mundo reclamando do final de Dexter. Assisti ao episódio e não entendi tanta revolta. Não vou dizer que foi o final que eu queria ou esperava, não foi, mas também não foi o desastre que estão acusando-o de ser. O último episódio da série, “Remember the Monsters?” foi absolutamente coerente com o desenvolvimento pessoal do personagem nas últimas 8 temporadas, a conclusão mais correta para o processo de humanização de um psicopata que seria, é claro, um milagre e, nas palavras do próprio Dexter diante do destino de Deb: “Eu nunca vi um milagre.”

O que eu senti falta? Foco. Quer dizer, durante 8 anos eles nos apresentaram uma galeria completa de excêntricos personagens complexos, nos permitiram conhecer mais profundamente cada membro do Miami Metro e, uma vez finalizada a série, não tivemos uma conclusão para nenhum deles. O 10º episódio da temporada mostra o quanto Dexter afetou a vida de Angel, mas fica por isso mesmo. O último vislumbre que temos de Quinn é um olhar odioso agradecendo a morte de Saxon? Eu esperava mais. Queria saber como cada um deles seguirá sua vida depois de perder os irmãos Morgan tão subitamente. Ficaram tão preocupados em resolver a história central que transformaram os coadjuvantes em meros figurantes…

A temporada final: A maioria das pessoas que não gostou do último episódio também já estava reclamando que a oitava temporada inteira foi “muito parada”. A verdade é que não podiam estar mais enganados. Enquanto os primeiros 7 anos nos apresentaram uma versão fatalista do protagonista que abraçara seu “Passageiro” e aceitara que sua falta de emoções era um problema meramente genético e incorrigível, até que Hanna surge em sua vida, fazendo-o capaz de questionar tudo aquilo que tomara como verdade absoluta. A última temporada foi parada para aqueles que assistiram Dexter por seu aspecto violento e sanguinolento, mas muito agitada para aqueles que se sentiram atraídos pela psique do analista forense: Dexter e Bryan Moser não nasceram com este instinto violento, foi algo que forçaram em suas gargantas infantis, a única forma de exprimirem o trauma da perda de sua mãe de forma tão cruel. Neste aspecto, a oitava temporada é a mais profunda entre todas, permitindo que Dexter questione sua própria hostilidade e sua capacidade de superar suas compulsões. Por esta razão, considero a oitava uma das melhores temporadas da série, comparando-a até mesmo com a primeira, que trabalha o resgate de suas lembranças infantis, e a quarta, que apresenta o primeiro questionamento de Dexter em priorizar sua vida familiar em oposição à sua co-dependência do Passageiro.

Jogo de espelhos? Em muitos aspectos, os últimos 12 episódios refletem diretamente os primeiros 12. Enquanto a primeira temporada apresenta a trágica morte de Laura Moser com a criação do instindo assassino de Dexter enquanto banhado em seu sangue, a última temporada resgata este momento de quebra ao colocá-lo banhado no sangue de Evelyn Vogel, mãe e criadora do Passageiro, questionando pela primeira vez a real existência desta entidade. Simultaneamente, temos a versão distorcida e espelhada de Bryan Moser em Daniel Vogel (mais popularmente conhecido como Saxon) que, em busca da aceitação familiar que Dexter recebeu, destrói tudo que a versão madura e quase independente de Dexter batalhou tanto para construir.

Além destas referências mais profundas, temos ainda dois Easter Eggs neste final de série: o furacão que permite que Dexter destrua sua persona é chamado Laura, assim como sua mãe, um detalhe que poderia ter sido observado pelo nosso sagaz protagonista. Além disso, quando Saxon escapa de Deb, a caminho do estacionamento da loja de conveniência, o vemos passando por um caminhão refrigerado, o que me faz automaticamente lembrar de Bryan, ou melhor, o ICE TRUCK KILLER.

Um lado mais humano: Dexter começa a mostrar sua humanidade mais aflorada à partir da quarta temporada. Todo o seu relacionamento com Trinity é uma introdução à vida familiar cuja necessidade surge em virtude do nascimento de Harrison. Esta descoberta de Dexter fica evidente nos flashbacks apresentados entre ele e Deb na maternidade, no qual Deb lhe mostra que existe bondade dentro dele, existe uma conexão emocional latente, mesmo que ele próprio não seja capaz de compreendê-la. A morte de Rita transforma esta emoção latente em algo real, um lado de si que ele é forçado a desenvolver em virtude do filho e sua simples capacidade de colocar o bem estar de Harrison acima do seu já é o primeiro indício de que ele está aprendendo a lidar com as próprias emoções. Surgem então as mulheres que despertam seu lado amoroso. Com Rita, o relacionamento era quase exclusivamente prático. Com Lumen, ele descobre a possibilidade de abrir sua vida secreta às pessoas que compartilham seu senso moral, e é a base estrutural de seu psicológico que o prepara para realmente entregar-se ao relacionamento com Hanna. Trata-se da evolução do personagem, simples assim: mediante um fator externo (Harrison), Dexter encontra a necessidade de se tornar mais do que o monstro que ele se acomodou em ser. O episódio final é a epítome desta decisão, a realização final de que ele pode escolher a família acima do monstro, mas o monstro jamais escolherá deixá-lo partir.

Bye, Bye Harry! Sei que vocês também notaram que a projeção de Harry que acompanha Dexter durante toda a série esteve completamente ausente no episódio final, representando a escolha do protagonista em priorizar sua família sobre sue instinto. Sim, o final deixou muita coisa aberta à interpretação, mas a ausência de Harry fala muito para mim: Sua escolha final foi emocional, foi pelo bem estar de Harrison e Hanna, libertando-os do assassino de suas vidas.

Por que Deb precisava morrer: Muita gente ficou revoltada com o destino final da boca suja mais amável da televisão, Debra Morgan. Para que o personagem de Dexter pudesse finalmente evoluir, era preciso que ela perecesse. Ao escolher deixar Saxon viver, Dexter percebe que acabou influenciando o destino da irmã. Este é o estopim final, sua motivação maior para fazer sua escolha. Debra esteve ao seu lado independente de qualquer forma de julgamento, colocando o bem estar do irmão acima de sua própria sanidade ou seus valores. Em sua morte, Dexter tem a realização final de que deixar Saxon viver não significou escolher sua família, mas colocar sua própria felicidade acima do bem estar daqueles que ele ama. Ao libertar Deb da prisão física, Dexter encontra a capacidade de colocar o bem estar da irmã acima de sua necessidade de tê-la por perto (esta necessidade é muito proeminente no início da temporada), sabendo que Debra jamais seria ela mesma como um vegetal. Neste ato de sacrifício, Dexter compreende que precisa proteger Hanna e Harrison com mais força do que precisa tê-los ao seu lado, e se permite eliminar o último assassino de sua lista: a si mesmo.

Por que Dexter precisava sobreviver: Seu código moral coloca a auto preservação acima de tudo. Dexter é condicionado a se proteger, a buscar o anonimato. Sua natureza jamais permitiria que ele tirasse a própria vida, pois está em seu código genético o instinto selvagem da sobrevivência. Seu suicídio está no isolamento, no afastamento, na completa exclusão de si mesmo da sociedade, forçando-se a viver o resto de seus dias exclusivamente funcionando em piloto automático até que seu corpo siga o curso natural do envelhecimento. Forjar sua morte, a meu ver, não é uma forma de proteger sua identidade, mas uma forma de proteger o filho da sua influência, o último sacrifício que poderia ser feito por um pai.

Minha conclusão final: Fiquei bastante satisfeita com o encerramento da série, muito feliz com a profundidade analítica que o personagem nos deixou como legado e, certamente, serei a primeira a recomendar como opção inteligente de entretenimento àqueles que preferem um drama psicológico às sanguinolentas cenas de assassinato que fizeram a fama da série.

PS: A parte do episódio que mais me emocionou foi a conversa entre Deb e Dexter durante o flashback, no qual ela relembra dele protegendo-a das sombras nas paredes, os “monstros”. Aquela troca entre os dois, na minha opinião, é essencial para analisar o que o series finale representa para a história como um todo…

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7 thoughts on “Review final: Dexter – “Remember the Monsters?”

  1. Uma ótima análise e um ponto de vista diferente, n tinha pensado nas coisas dessa forma. Mas mesmo eu gostando da parte de humanização do Dexter, ainda assim a última temporada não teve impacto em nenhum momento nem teve ritmo de um final de série. Pra mim o último episódio ficou com cara de meio de temporada. Esperava mais de um final relativamente planejado(antes da temporada estrear havia sido decidido).

  2. Pingback: 5 episódios imperdíveis de “Dexter” | Junkies de Conteúdo

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