Os Beatles do underground

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Quatro garotos suburbanos. Da mesma entristecida região. Os quatro com futuro incerto. Afetados por um período social crítico e pessimista, típico de um pós-guerra. Todos com personalidades muito diferentes. Mas com uma coisa em comum: os quatro querendo fazer música. Se expressar através de letras e melodias rebeldes e ao mesmo tempo sentimentais. Um pequeno e condescendente clube noturno lhes abre as portas. Tocam para quase ninguém. Não são levados a sério. Mas fazem seu trabalho com a seriedade de um profissional exemplar. Tocam as próprias composições. Cada um com seu estilo, mas integrados por uma particularidade: a paixão pela música jovem. E por um objetivo comum: o reconhecimento, sem a precisa dimensão do que almejam alcançar. Alguns começam a reparar que o som dos quatro rapazes é diferente, inédito, inusitado, ousado, corajoso. O potencial para quebrar paradigmas transforma-se em novos espaços para tocarem. Assim, aos poucos e com uma autocrença muito forte, vão ao encontro de jovens como eles, sedentos por expressividade, representação, liberdade. Sempre tendo os acordes da guitarra, a energia do contrabaixo, a levada da bateria e a irreverência dos vocais como ferramentas para exprimirem sua mensagem.
Os comentários se espalham. A repercussão espontânea lhes garante cada vez mais público. E consequentemente mais convites para tocar. Um empresário os descobre e vislumbra uma mina de ouro. Mudam de patamar. Profissionalizam-se de fato. Chega a vez de a indústria fonográfica lhes abrir os estúdios para gravarem suas faixas, sempre concisas e carismáticas. Disco nas lojas, filas nas bilheterias, histeria na plateia, muitos aplausos ao final de cada apresentação. Uma geração de jovens ansiosos ganha voz e melodia. Pronto! Agora é só conquistar o mundo, e é o que eles fazem. Porque criaram algo diferente, que extrapola a música em si, que passa por um feeling jovial e coletivo. Trata-se de uma nova fórmula, simples e genial. Assim, influenciaram um incontável número de jovens em busca de afirmação, foram corresponsáveis pelo surgimento de milhares de novas bandas que surfavam nas mesmas ondas. Algumas alcançaram o estrelato, outras ficaram pelo caminho. Porém, todas foram felizes por tomarem a mesma atitude de seus inspiradores. E a história da música nunca mais foi a mesma.
Se em algum momento você pensou que eu estava falando dos Beatles, esqueça. Não, não estamos em Liverpool. Estamos em Nova York. Também não são os anos 60, são os anos 70. E os quatro rapazes não usam terninho, usam jaquetas de couro e calças rasgadas. Eles não são bonitinhos. Ao contrário, têm aparência ameaçadora. Nem muito educados, falam palavrões aos montes. Muito menos são politicamente corretos, “chutam o balde” a cada música. Mas eles têm carisma, e como! No lugar de Ringo, Tommy. No de George, Johnny. No lugar de Paul, Dee Dee. E no de John, Joey.  Em vez de Twist and Shout, Blitzkrieg Bop. Em vez de Love Me Do, Beat On The Brat. Em vez de Baby It´s You, Judy is a Punk. Do mesmo jeito que as similaridades em relação ao quarteto britânico são plausíveis, as diferenças também são enormes.
Focando agora somente nos nossos “animal boys”, o que pode explicar a trajetória tão singular desses garotos do Queens nova-iorquino? Acredito que uma série de detalhes decisivos. Em primeiro lugar, se analisarmos os projetos e trabalhos diversos que seus membros fizeram paralelamente ou após saírem da banda, não encontraremos nada brilhante ou mesmo marcante. Isso comprova que a magia, quer dizer, a fantástica simbiose que eles mostraram no palco desde os primórdios do grupo, só foi possível com a soma antagônica de seus quatro “tipos”. Foi a soma dos fatores opostos que resultou no produto sem igual que conhecemos.
Tommy, o articulado (porta-voz da banda e criador da inconfundível batida, herdada à perfeição por Marky); Johnny, o coração de pedra (raivoso com a guitarra e “dono da bola” na hora de tomar as decisões); Dee Dee, o muito louco (compositor criativo e verdadeiro personagem da vida real); Joey, o improvável (cara de monstro, coração de anjo). Eis a fórmula do fenômeno…
Fora isso, várias sacadas garantiram a criação de uma identidade inconfundível. O eterno One, Two, Three, Four de Dee Dee (depois CJ). Os quatro em posições fixas no palco, sempre de frente para o público. A objetividade das apresentações, dando aos jovens somente o que eles queriam, sem subterfúgios ou pirotecnias. O foco sempre foi a música. Por isso, emendavam uma na outra, não dando tempo para a plateia respirar (e quem disse que suas plateias queriam respirar?). Não existe nada mais rock´n´roll que isso. Sem firulas, sem conversa fiada. A constatação de que estamos falando da banda mais honesta de que se tem notícia. Honesta com seu público e consigo mesma. Yeah!
Geralmente quem acha que eles faziam um som simplista e fácil, e não os leva a sério, pensa que o rock se resume às técnicas instrumentais e melódicas. Se o rock fosse só isso, seria um tédio. As análises técnicas condenam a banda eternamente a um posto secundário na visão de pretensos especialistas. Pretensos porque entender de rock não é apenas entender tecnicamente de música. Entender de rock é compreender o espírito que ele evoca (ou evocava, pois hoje em dia a coisa está feia). Esse espírito era evocado toda vez que esses garotos surrados subiam ao palco. A fórmula deles é simples, mas não é simplista (a lâmpada é simples, não é? Mas, vai inventá-la…). Um músico acadêmico não aguentaria tocar nem por dez minutos da maneira como eles tocavam ao vivo.
Diante desse quadro, não é exagero dizer de que se trata da banda mais injustiçada da história do rock, pois seu legado para a música pop em geral é incomensurável. Só não vê quem não quer. Se eles não tivessem acontecido, muita coisa depois deles simplesmente não existiria. Por isso, os considero como uma espécie de Beatles do underground.
Muito do que falei nesse texto pode ser conferido de modo bem mais divertido no documentário End of the Century (2003, dirigido por Jim Fields e Michael Gramaglia).
Ah! Já ia me esquecendo de dizer o nome da banda sobre a qual falei aqui. Mas, pensando bem, nem precisa, pois tenho certeza de que já está na sua cabeça, acompanhada de um vibrante Hey Ho, Let´s Go!

Texto de Eduardo Marsola, redator, cinéfilo, roqueiro e colaborador eventual sempre bem vindo!

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