Review: “Passion” (2012), de Brian DePalma

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Aproveito o espaço disponível aqui no Junkies para apresentar um review de um crítico convidado, Eduardo Marsola. Espero que vocês recebam sua visão com a mesma admiração que eu, pois vai ser bem difícil encontrar por aí um cinéfilo maior ou mais eloquente do que ele. Edu, o Junkies é seu sempre que desejar!

Brian De Palma é um dos últimos expoentes daquela geração rebelde do cinema americano setentista, ao lado de nomes que enveredaram por caminhos diversos e alguns controversos, como Spielberg, Coppola, Lucas e Scorsese, este último o único ainda em grande forma.

Mas, voltando a De Palma, sempre foi o mais hitchcockiano deles todos, fã declarado e explicitamente influenciado pelo mestre inglês desde seu primeiro filme. Essa influência nada modesta, unida ao próprio talento técnico-artístico
do diretor para criar incríveis mise-en-scènes, vários plano-sequência marcantes e muita habilidade com a câmera, fez surgir algumas obras-primas do cinema Hollywoodiano.

Agora, depois de anos com uma atuação irregular como diretor, quando nos infelicitou com filmes muito abaixo da crítica, como Dália Negra, eis que De Palma ressurge em 2012 com Passion, produção europeia (assim como Woody Allen,
ele não tem conseguido financiamento nos EUA) que foi prometida como uma volta aos seus melhores momentos e temas mais caros. O resultado é muito duvidoso, mas também traz certezas sobre a carreira deste autor artesão.

Muitos críticos importantes esculacharam completamente a obra, talvez num impulso saudosista a tudo de bom que De Palma já fez no passado. Passion realmente não se aproxima de seus melhores títulos, todavia não é de se jogar fora, como muitos andaram apregoando. Primeiro porque, mesmo com todos os seus defeitos e pontos fracos, Passion ainda é muito mais instigante e interessante que a maioria esmagadora de lançamentos atuais.

Passion deixa a impressão de ser nada mais que uma amálgama do que De Palma já fez de melhor e que o tornou um autor de muito respeito. Podemos imaginar que o diretor deve ter passado, nos últimos anos, por uma espécie de crise de identidade autoral, não sabendo exatamente como se encaixar nos novos padrões criativos e conceituais do mainstream cinematográfico. Esse conflito industrial/artístico provavelmente o deixou inseguro com seus projetos, talvez até por causa disso tenha tido dificuldades de financiamento na América.

Senão, vejamos. Carrie está presente em Passion no clima soturno e no suspense. Scarface está presente na ambição desmedida e na solidão. Os Intocáveis está no apuro visual. Femme Fatale está na sensualidade/sedução e na montagem. Vestida para Matar no crime pretensamente perfeito, Dublê de Corpo está na tensão sexual crescente… Enfim, o que para muitos críticos acabou resultando numa autossátira que De Palma fez de si mesmo (involuntariamente), na verdade pode ser considerado um autoplágio (este sim voluntário). A diferença é que na autossátira fica claro o descontentamento com o filme de forma geral, caindo na pecha de sátira exatamente por ser (dizem) ruim. Já se a leitura for de autoplágio, existe aqui, confesso, certa condescendência para com o diretor, visto que se trata de um dos pouquíssimos cineastas vivos e atuantes que possuem uma cinematografia tão rica e mesmo genial.

Não, Passion não é genial, genial é seu diretor. Explico: o filme realmente beira o kitsch a maior parte do tempo, mergulhando nele em alguns momentos. Isso acontece porque De Palma sempre esteve na linha tênue entre o kitsch e o elegante, mas em Passion há um desequilíbrio estético prejudicial. Mais: no afã de presentear a audiência com aquilo que sabe fazer de melhor, o diretor caiu na própria armadilha, já que o resultado final é inferior justamente pela ansiedade de se fazer um exercício genérico de seu estilo característico. Assim, Passion tem furos graves no roteiro, abusa de inverossimilhança, não tem um bom elenco, apesar da presença cintilante de Rachel McAdams (a câmera a adora), a trilha sonora é bastante questionável, enfim, não são poucos os defeitos.

Dito isto, também não são poucos os momentos em que notamos a mão talentosa do diretor, mas estes momentos são esparsos, não concatenados, o que prejudica o todo do filme, principalmente para quem não é iniciado no seu cinema tão peculiar.

Por fim, a conclusão é de que Passion vale a pena para quem conhece e admira como fã a obra de Brian de Palma e estava sedento por algo novo. Claro que seus fãs prefeririam uma nova obra-prima, um novo “Blow Out”, mas, como dito acima, este Passion funciona apenas como um compêndio de destrezas históricas de seu diretor, que não resulta num grande filme, porém entrega algo muito mais interessante que quase tudo produzido hoje em Hollywood.

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