Vale tudo em nome da arte?

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Rhythm 0 (1973)

 Você já ouviu falar em Marina Abramović? Nascida em 1946, esta artista sérvia é considerada a “avó das artes performáticas” com suas exibições que exploravam a relação do público com o artista, os limites do corpo humano e da mente. Entre 1973 e 1974, Marina levou sua arte a novos níveis, com uma coleção de quatro exibições que mudariam a história da arte para sempre e que qualquer artista precisa conhecer:

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Sua primeira performance explorou elementos rituais e físicos. Utilizando apenas 20 facas e dois gravadores, Marina fez aquela brincadeira russa em que se faz movimentos rítmicos com uma faca nos vãos entre os dedos. A cada vez em que se cortava com uma das facas, colocava-as de lado e pegava uma faca nova, gravando o áudio durante todo o processo. Depois de se cortar com todas as 20 facas, ela escutou a fita gravada tentando reproduzir seus movimentos e repetir seus erros, fundindo o passado e o presente. Seu objetivo era explorar as limitações físicas e mentais do corpo por meio da dor, dos sons de cada facada e os barulhos repetidos na reprodução do áudio. Com esta apresentação, Marina passou a questionar o estado mental do artista durante sua performance, afirmando: “Uma vez que se entra no estado mental da performance você pode levar o corpo a fazer coisas que você nunca faria normalmente.”

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Elevando a intensidade de sua experiência com a dor e os limites do corpo, este experimento começou com uma estrela coberta de petróleo. Marina ateou fogo sobre a estrela e cortou suas unhas e cabelos, jogando as parte cortadas no fogo para criar chamas de luz e calor a cada vez que uma de suas partes alcançada o fogo. O uso da estrela representava a purificação de alma e mente ao queimar seu passado político comunista. Em um ato final de purificação, Marine saltou para o centro da estrela, perdendo a consciência em meio às chamas. Quando ela não reagiu à proximidade das chamas, alguns membros da platéia perceberam o que acontecia e a socorreram. Uma vez recuperada, Marina declarou: “Eu fiquei muito irritada, pois percebi que existe um limite físico: Quando você perde a consciência, você não está presente e não pode performar.”

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Com a questão da perda da consciência em mente, Marina desenvolveu uma apresentação para testar a capacidade de um artista performar independente de seu estado de consciência. Na primeira parte da experiência, Marina tomou um remédio para catatonia. Estando completamente saudável, seu corpo reagiu violentamente à droga e ela sofreu convulsões e movimentos involuntários de seus músculos. Apesar de não ter controle algum sobre o corpo, sua mente permaneceu presente o tempo inteiro. Na segunda parte da apresentação, Marina tomou outro remédio, uma droga para controlar pessoas com comportamentos depressivos e agressivos. Seu corpo esteve completamente presente mas, mentalmente, Marina estava ausente, não possuindo qualquer forma de lembrança do tempo passado.

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Para testar a relação do artista com seu público, Marina desenvolveu sua mais desafiadora e famosa performance, colocando-se uma posição completamente passiva e transformando o público na força a atuar sobre ela, disponibilizando 72 objetos para que o público utilizasse nela da maneira que desejasse enquanto ela permanecia imóvel por 6 horas. Alguns dos objetos poderiam causar prazer, outro dor e alguns feri-la. Entre os objetos disponíveis, havia uma rosa, uma pena, mel, um chicote, tesouras, uma faca e até mesmo uma arma carregada com uma única bala. No início, o público se mostrou pacífico e tímido mas, em pouco tempo, tornaram-se violentos. Segundo Marina, “A experiência que eu aprendi foi que… se você deixar a decisão para o público, você pode ser morta… Eu me senti muito violada. Cortaram minhas roupas, enfiaram espinos de rosas na minha barriga, uma pessoa apontou a arma para a minha cabeça, e outra tirou a arma de perto. Isso criou uma atmosfera agressiva. Após exatamente 6 horas, como planejei, eu me levantei e comecei a andar em direção ao público. Todos fugiram correndo, escapando de um confronto real.” Este experimente de Marina mostrou um lado bastante perigoso de todos nós, demonstrando a facilidade com a qual somos capazes de desumanizar aqueles que não podem se defender.

Até hoje, Marina continua se apresentando. Em 2010, realizou o projeto “O Artista Está Presente”, a maior exibição performática da história do MoMA (Museu de arte moderna), em Nova Iorque, gerando grande repercussão por todo o mundo e expandindo o alcance de sua arte para um público até então desinteressado. Enquanto isso, os reality shows produzem celebridades descartáveis que nós tratamos como se houvesse algum talento por trás dos corpos plásticos e citações ignorantes.

Qual o limite da arte e até onde cada um de nós está disposto à ir pela nossa? Não sei responder agora mas, certamente, Marina Abramović é uma das minhas maiores inspirações.

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