Crônicas de um alucinado – I

“O erotismo é uma das bases do conhecimento de nós próprios, tão indispensável como a poesia.” (Anaïs Nin)

O Beijo, de Rodin, em desenho de Silvana Salgueiro.

O Beijo, de Rodin, em desenho de Silvana Salgueiro.

Livros, livros, livros e mais livros. Um mundo inteiro só de textos, palavras, letras. E as pausas. Pausas necessárias, pausas impostas, com respiros sufocantes.

Semana passada, desculpem, não consegui lhes dar a prometida coluna semanal.  Ando envolto em muitas letras. Seja lendo (nestes quinze dias, li ‘Memórias de Minhas Putas Tristes’ (Gabriel Garcia Márquez), ‘Os Cadernos de Don Rigoberto’ (Mario Vargas Llosa) e ‘Madame Bovary (Gustave Flaubert)), seja escrevendo (estou trabalhando numa novela, mas que se me der na telha, vira um romance breve), seja revisando e editando a obra de uma amiga a ser publicada ainda este ano (o livro está delicioso, Nina), ou seja conjugando o verbo ‘amar’.

Pouparei a todos da sofrível rotina de escritor, manterei sigilo sobre o livro da Nina e não lhes interessa como, quando e quantas vezes conjuguei o verbo ‘amar’ (apenas saibam que nunca havia conjugado desta forma), por isso, vamos, hoje, falar de livros que eu li.

Como já disse, sou o desempregado mais ocupado que conheço. E ler é uma ocupação que me relaxa. Gosto de ler na rua, viajando pela cidade dentro de um ônibus, de um trem ou no metrô. Gosto de ler sob a luz do sol, gosto de sentir a vibração do dia e a movimentação das pessoas. Besteira, mas é assim. E pude perceber: difícil ter em São Paulo lugar mais feio que o terminal de ônibus situado no centro da Zona Sul da cidade, cito Santo Amaro.

Nestes quinze dias, viajei bastante dentro da cidade, de Interlagos para a Mooca, da Mooca para Interlagos. Alguns dias, de carro, outros, de transporte público. Fui, assim, colocando minha leitura em dia. Claro que ter lido ‘Memórias de minhas putas tristes’, consumido em meio dia, ajudou-me a obter a média deveras impressionante de um livro a cada cinco dias.

Coincidentemente , os três livros tratam de amor e de sexo. Coincidência mesmo, porque, juro, não sabia que o livro de Llosa trazia erotismo. Curioso, também, porque neste mesmo período, além de ler sobre, eu vivia amor e sexo (como eu disse, conjuguei em abundância e regozijo o verbo ‘amar’).

Garcia Márquez

É impressionante como me faz bem ler o autor colombiano em questão. Escreve de um jeito que me faz ter a certeza de que posso ser qualquer coisa, menos escritor. De verdade, mesmo porque, como me foi dito pela mulher na qual mergulhei nestes dias por puro vício dependente, não sou pseudo-escritor, mas sim chef de cozinha ou cozinheiro. Então, é isso, sou um cozinheiro que gostaria de ser escritor e, por isso, me meto a escrever, corrigir, editar ou revisar. Enfim, a questão é que Garcia Márquez cria histórias realistas com incrível maestria. Um gênio.

O livro trata de um sujeito já idoso cujo nome não é revelado e todos os desdobramentos psicológicos que lhe causam os noventa anos de vida. Fala-se muito de sexo, mas não há ação alguma. Romanticamente, lindo. Para entender que ser romântico e escrever histórias lindas, fofas e o escambau não quer dizer esquecer de tratar bem as palavras ou esquecer de fazer literatura de verdade, entendido, senhor Sparks?

Vargas Llosa

Primeiramente, a edição que tenho em casa é da Companhia das Letras. É a primeira, em segunda reimpressão e está ali grafado ‘Don’, com ‘n’, diferente das edições de outras editoras (Dom Quixote, Alfaguarra, etc.), onde se lê ‘Dom’, com ‘m’, por isto manterei o título grafado como está na edição que possuo.

Em tempos de febre cega pela subliteratura de ‘Cinquenta Tons de Cinza’ e seus afins, o acaso colocou em minha mão um livro de um peruano safado (nos muitos bons sentidos da coisa) premiado por direito e mérito com um belíssimo Prêmio Nobel de Literatura que deveria fazer sentir vergonha todos os que leram a tal subliteratura apenas para achar sexo. ‘Os cadernos de Don Rigoberto’ é um livro fetichista. Erótico, pois. Uma esposa adúltera, um marido traído, mas apaixonado, liberal e fetichista. Uma separação imposta pela sociedade. E todo um emaranhado de artimanhas para que o amor prevaleça. Romântico, lindo, e com ótimas cenas de sexo. Onde está seus tons de vergonha, agora?

Flaubert

Se falamos de sexo, culhão é o tópico aqui. O autor francês tinha exatamente trinta e quatro anos quando seu livro definitivo foi lançado. ‘Madame Bovary’ levou cinco anos para ser finalizado por seu criador, o que indica que Flaubert iniciou sua produção aos vinte e nove anos. Culhão, sim. Culhão para ficar cinco anos trabalhando em uma obra literária, culhão para vencer tanta desgraça que sua vida era (se bem que um pouco de loucura também foi usada por ele como fuga), culhão para revolucionar a literatura com o realismo chocante e mais perfeito até então, tão bem detalhado, culhão para escrever sobre um mulher adúltera em plena década de 1850, culhão para escrever sobre erotismo tão suavemente, com tanto cuidado, que o erotismo fica apenas subentendido, mas ainda a ponto de excitar e culhão para enfrentar a corte e se auto intitular a própria Madame Bovary. Não a toa que o autor foi condecorado com a Legião da Honra pelo governo francês quinze anos após o lançamento de sua mais aclamada obra.

Madame Bovary é isso: uma obra que retrata tão fielmente sua época, mas com uma personagem que é exatamente tudo aquilo que a sociedade mais temia: uma mulher sexualmente ativa, infeliz com o casamento e adúltera. Enfim, uma mulher, vejam só!, em busca da própria felicidade. Absurdo que isso tenha chocado até mesmo a corte? Claro, principalmente porque estamos falando de Paris, o polo cultural do século em questão (e do seguinte também) e cidade mais liberal e libertina, sempre.

Enfim, enquanto aconselho a todos a conhecerem o lado podre de Paris na exata metade do século XIX  lendo os relatos, digamos assim, de Flaubert em ‘Madame Bovary’, vou ler mais um pouco de Garcia Márquez enquanto sigo conjugando ad infinitum o verbo ‘amar’.

Anúncios

One thought on “Crônicas de um alucinado – I

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s