Desenvolvendo uma coluna

henrymillerbissinger

Esta é minha primeira coluna neste espaço. Fui convidado a escrever aqui um texto, toda quarta-feira, sobre literatura. A questão é: escrever o que, exatamente?

Em um primeiro momento, pensei em escrever sobre os lançamentos do mercado editorial, com indicações de títulos, falando sobre o autor, sobre eventuais obras anteriores e, quando possível, colocar críticas sobre livros recém lançados. O problema seria ter que ler um livro por semana. Não que em termos de leitura isso seja impossível, pelo contrário, mas financeiramente, atualmente, para mim, sim, é impossível (vai ser escritor não publicado que você vai entender). E ficar caçando os lançamentos da semana, não sei, poderia ser legal, mas parece já ter aí, no mundo virtual, bons locais para acesso a estas informações.

A segunda ideia que me veio foi falar sobre um livro qualquer, que eu tenha lido não importa quando, foda-se se é antigo ou lançamento, mas seria uma critica. Poderia ser legal, mas aí temos a dificuldade de escolher um título para esta primeira coluna. Obviamente teria que ser um livro que eu tenha gostado muito, afinal livros medianos ou ruins não ficam guardados na memória, e seria legal que fosse algo com algum valor enquanto formação ou discussão literária. Mas qual? Que tipo de livro seria interessante indicar?

“O Deus das Pequenas Coisas”

O primeiro livro que me veio à cabeça foi o deliciosíssimo livro da autora indiana Arundhati RoyO Deus das Pequenas Coisas, um dos meus livros favoritos, definitivamente. Um livro em que se percebe que cada letra foi colocada no papel (ou na tela) de forma muito bem pensada. A construção delicada da autora, palavra por palavra, com muito respiro, para que pensemos sobre o que estamos lendo, assim como ela parece ter pensado cuidadosamente sobre o que escrevia, faz parecer, em alguns momentos, uma poesia. É uma história que poderia ser perturbadora, angustiante, mas não o é graças à forma como a autora construiu o livro inteiro. Delicioso. Livro de cabeceira.

Porém, ainda assim, acho que, se eu fosse falar de um livro qualquer numa primeira coluna, eu deveria discorrer sobre um livro que descreva mais precisamente que tipo de leitor e que tipo de pessoa eu sou. Dessa forma, o livro tem que ser de um autor mais politizado, com um viés social, mas que não tenha pudores em falar sobre sexo e /ou álcool. Algo meio maldito, meio beatnik, mas não necessariamente.

Com isso em mente, lembrei-me de um livro que chegou até mim por acaso, sem eu fazer ideia do que era.

“Política”

Recheado de ironia e humor suave, apesar do titulo que assusta, por parecer denso, pesado ou, por que não dizer?, chato, o livro do inglês Adam Thrilwell é um tratado sobre relações humanas, mas que tem o sexo como ponto base desta discussão. Logo no início percebe-se o equívoco que o título pode causar, pois o livro começa com a descrição de uma cena de sexo BDSM¹. Em sequência, a forma como a relação entre os dois protagonistas é construída e desenvolvida, indicando e apontando os erros e acertos que existem nas relações interpessoais, envolve o leitor e transforma o livro no devido tratado sobre política, se entendermos política como todo e qualquer relacionamento entre duas ou mais pessoas, e toda a cortesia e educação envolvida nesta relação, tendo em vista a obtenção de resultados desejados. Um tratado escrito como quem conta uma história para amigos, em um pub, entre pints e mais pints de cerveja. Um livro sério, intenso, mas divertido, que vale a leitura, mesmo com o autor pecando ao não se aprofundar em determinados temas,  que parecem ser deixados de lado por preguiça, dando um ar superficial, algumas vezes.

Sem memória, não existe crítico literário

Mas percebi minha dificuldade, nos dois casos, em tentar falar sobre livros que li há algum tempo. Dificuldade causada por dois motivos bem simples: primeiro que não tenho formação para ser crítico literário. Sou leitor, voraz, mas como crítico, sou analfabeto de pai e mãe. Segundo, tenho um grave problema de memória, bem conhecido por todos os meus amigos e familiares, causado por anos bem vividos, e que me impede de lembrar de coisas simples e cotidianas, quanto mais detalhes de um livro que li há dois meses, um semestre, ou dois anos. Ou seja, não poderia falar sobre livros que li no passado, mesmo que eu fosse um grande critico literário. E, por não ser crítico literário, mesmo que eu pudesse ler um livro por semana para falar sobre ele, de nada adiantaria, pois nada sairia de produtivo.

Foi então, neste momento em que eu estava quase jogando a toalha, que em uma conversa com o casal dono deste espaço, veio a ideia: falar sobre qualquer coisa em relação a literatura, indicando blogs, indicando livros, mesmo sem uma critica válida, falando sobre concursos literários, dicas para novos autores, divulgando editoras que publicam novos autores, formas de mandar originais e tudo o mais que possa ajudar a formar novos leitores e novos escritores.

Vai ser isso. Vamos ver no que vai dar, mas o primeiro passo está aqui.

Boa sorte a todos nós.

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1 – BDSM: acrônimo para ‘Bondage, Disciplina, Dominação, Submissão, Sadismo e Masoquismo’ que representa uma série de práticas e expressões, eróticas ou não, envolvendo contenção, estimulação sensorial, role-playing, e uma variedade de dinâmica interpessoal.

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